Ele falou, ela não quis acreditar. As flores ainda cheiravam bem no vaso de vidro em cima da mesa central. As roupas ainda tinham aquele aroma e os seus dois chinelos espalhados não serviriam muito já que o chão sumira de sua vista. Seu semblante era sério, assustador, frio, enquanto ela tentava organizar as facadas por ordem de tamanho. Todas na direção errada. Ele insistiu, ela não quis aceitar. As cartas guardadas naquela caixa não diziam isso. Era contraditório. Mas o desespero tomou conta de sua face e as palavras seguintes saíram feito tiro, “fica com as suas coisas”. Doeu dizer isso, tanto quanto digerir um fim tão medonho. A sensação de não saber o que fazer era a menos sábia. Qualquer atitude mal pensada poderia ser fatal. E foi. Pensar naquele momento era quase impossível! Aquele dia não podia terminar assim, foi a coisa mais sensata que passou por sua cabeça. Mas terminou. O dia e tudo que se passara naquele último ano. Os doze meses em que viagens foram marcadas, sonhos foram alcançados, planos foram traçados. Ela podia viver sem ele, mas não queria. Ela sabia que tudo iria passar, mas não queria presenciar mais uma dor. Não de novo. Não daquele jeito. Seu corpo procurou o dele, como num labirinto, mas não era o mesmo. Não a mesma pele. Não o mesmo olhar. Não o mesmo abraço. Onde estaria o rapaz por quem se apaixonou e entregou seu coração, se perguntou por um segundo. Desistiu da resposta, já que ele nem a encarava. O sentimento de que nada passava de um pesadelo era tão forte quanto o perfume que ainda gritava em seus braços, pedindo pra ser lembrado. Suas lágrimas eram assustadoramente intensas enquanto o outro rosto, seco, cheirava a barba por fazer. Coisas foram entregues, e outras ainda foram esquecidas. Os presentes do dia seguinte esperavam indecisos pelas mãos vazias e suadas dele. A vontade era mesmo de jogar tudo pela janela do quinto andar. Ele foi embora, ela não quis olhar. Diminuía-se a cada passo que ele dava. Doía, cada gesto de indiferença. Sua consciência sabia que a presença seria sentida em toda ausência. Ele desapareceu, ela aprendeu. Aprendeu que a gratidão era maior que qualquer lamento. As conquistas eram maiores que qualquer perda. As flores já não cheiravam bem no vaso de vidro em cima da mesa central. Mas as lembranças daquele ano ficariam pro resto de todos os outros. Porque no meio disso tudo, ela aprendeu a como reconhecer o valor de um verdadeiro amor. Onde as cartas condizem com a realidade, onde as lágrimas demonstram sentimento, onde a visão é mais importante que a vista. Ela podia viver sem ele, e viveu. Ela sabia que tudo iria passar, e passou. Pois três palavras Deus pôs em seu coração: Perdão, paciência e amor.
“Guarda-me como a menina dos olhos, esconda-me à sombra de tuas asas, dos perversos que me oprimem, inimigos que me assediam de morte.” Salmos 17:8

2 Comentários:
simplesmente, lindo
amei
Thanks :)
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